Ela ia viajar para estudar francês um mês em Paris, e antes de ir para o aeroporto fomos tomar café da manhã. O clima de enterro era inevitável, desde que estávamos juntos, nunca ficamos tanto tempo separados. E obviamente nossos sentimentos eram um misto de medo e tristeza sem fim.
Chegamos num bistrô logo cedo e evitávamos falar sobre o assunto, fingíamos que era apenas mais um dia, que estaríamos juntos mais tarde, que tudo continuaria igual. Mas por dentro sabíamos que nem a teoria ou prática eram essas. Alem de não estarmos próximos fisicamente, também tínhamos o medo do que essa viagem pudesse causar dentro de nós. Dois ciumentos de carteirinha.
Quando começava a chegar perto a hora de ir, paramos de fingir, conversamos como seriam nossos cotidianos, como e quando conversaríamos, o quanto sentiríamos saudades. Após terminar os últimos pãezinhos e sucos de laranja nos levantamos e desesperados por dentro, fomos pagar a conta.
Entramos na fila do caixa que ficava na padaria ao lado. O sábado de sol trazia muita gente que deixavam os balcões lotados de médias e pães na chapa. A claridade invadia o salão pelas grandes janelas de vidro, e destoando daquilo tudo, apenas uma dupla de senhores, que com voz e violão, construíam a trilha sonora da acolhedora e melancólica manhã.
Lentamente e abraçados como se nunca mais fossemos nos ver, progredíamos na fila, mais rápido do que desejávamos. Já próximos da moça que cobrava os clientes incessantemente, ouvi os primeiros acordes de uma música que sempre gostei. Em qualquer interpretação, La Vie En Rose me agrada, mas a providência de tal canção justamente naquele momento a tornou imbatível.
A puxei pelo braço, colamos nossos rostos, e a menina que morria de vergonha de dançar em locais estranhos se deixou levar, esquecendo da fila, das pessoas, do avião, dançamos, no meio do salão de uma padaria, no meio da manhã, no meio do ano. Quando a música acabou, nos olhamos, e sem precisar de palavras dissemos tudo que precisávamos ouvir. Pagamos a caixa com os olhos cheio de lágrimas, nós três, e nos despedimos da melhor dança que já tivemos.