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Viagem da vida.

10 de outubro de 2008 por Kris Arruda · 11 Comentários · Aconteceu Comigo

Tive o privilégio de viver algumas grandes histórias na minha vida. Muitas dessas envolviam mulheres. E uma grande história para um romântico tem que ser muito boa mesmo. As expectativas, cenários, trilhas tem de ser todos perfeitos. Num modo quase infantil sempre idealizei viver histórias de cinema na vida real. Com o tempo vi que a trama toda é difícil, mas vez ou outra, quando o Cara lá em cima está olhando com mais carinho pra você, se consegue ao menos uma cena. E com muita sorte mesmo, um arco de cenas.

Num desses golpes de “sorte”, tive um arco dos mais fantásticos da minha vida. Para contar tudo precisaria de uma série de textos, então vou ao longo das semanas inserindo aqui algumas histórias, não respeitando ordem cronológica ou qualquer ordem, visto que o que vale é a trama e não a realidade.

Eu e ela nos entendíamos como poucas vezes me entendi com qualquer pessoa. Raciocinávamos de maneira parecida, expressávamos as mesmas sensações no mesmo momento, errávamos as mesmas partes das músicas. Ah, as músicas. Desde que nos envolvemos poderíamos encher toda uma sala de discos com nossas músicas. Com elas riamos, gargalhávamos,  nos excitávamos. Mas tinha uma que se provaria especial.

Certa noite nos encontramos, depois de muito tempo sem ter nada, ela tinha seguido com a vida dela e eu com a minha, e ainda que nunca tenhamos perdido contato, nunca mais tínhamos sentido como era gostoso nosso beijo. Mas lembrávamos bem. As horas passaram e ainda que pudéssemos (e de certo modo devêssemos) estar em outros lugares, com outras pessoas, não conseguíamos sair de perto. Sem beijo, sem contato, só aproveitando aquela sintonia sobrenatural.

Mais uma vez cantávamos juntos, errávamos juntos, e o conceito do que é certo foi mudando. Assim como nosso nível de consciência, alterado por taças de vinho e copos de whisky. A música cessou por um tempo, e a única coisa que soava em nossos ouvidos era o som da inevitabilidade. Tínhamos passado o retorno e agora só queríamos ver até onde isso ia.

Fui deixá-la em casa e no caminho começamos a conversar sobre essa nossa estranha relação.  Questionamos porque desde o primeiro momento que nos envolvemos já éramos tão íntimos, como se uma na frente do outro não precisasse de pose, máscara, vergonha. Como sentíamos que aquilo tudo era mais forte do que nós. Mais forte do que qualquer convenção ou contrato.

Perdido pelas ruas, sem saber se fazia aquilo de propósito ou por pura desorientação, encostei, e fiz a única coisa que conseguia pensar nessas alturas. A beijei como se fosse a primeira vez, como foram todos os nossos beijos, vigorosos, apaixonados, quentes e incessantes.

Depois de algumas voltas cheguei na porta de sua casa. Desliguei o carro e como um adolescente fiquei a namorando. Sem malícia ou segundas intenções, mais com os olhos do que com as mãos, mais com os ouvidos do que com a boca. Não sabia o que era melhor, sentir sua boca perfeitamente encaixada a minha ou quando repousava em seu ombro sentindo seu abraço apertado.

Ficamos assim por algumas horas, numa seqüência de eventos que deixaria qualquer romance cinematográfico no chinelo. Num certo momento, o rádio começou a tocar uma de nossas canções, encostamos nossas cabeças no banco e com os lábios levemente encostados cantamos. Lá de fora só ouvíamos a chuva, lá dentro aproveitávamos mais um momento, como uma dessas viagens que são tão boas que você não quer voltar. Afinal, nunca sabemos se algo parecido se repetirá…

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