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Indecente sim!

14 de novembro de 2008 por K · 12 Comentários · Pimenta

 

Há menos de três anos, eu era a típica funcionária de uma empresa. Nem tão típica assim visto que empresas de comunicação já têm suas diferenças naturais e uma liberdade maior quando comparadas a outras do mundo business. E, como em qualquer outra companhia, tinha uma “turma do almoço”, que significava basicamente as pessoas mais suportáveis para você almoçar sem engasgar. No meu caso, mais quatro ou cinco colegas de redação.

 

O assunto, durante as refeições, era sempre relacionado a sexo. Mulher fala muito de sexo, talvez, até mais que os homens. E, falam com uma riqueza de detalhes que até Marcel Proust teria invejado a desenvoltura das meninas. Graças aos vários anos que trabalhei lá e muitas refeições, fiquei sabendo – por exemplo – que o pinto do marido da minha amiga tinha 12 cm (duro, que fique claro), que o outro, que tomava viagra, tinha uma resistência danada e esfolava a companheira, um não gozava nunca, ou que o namorado de outra gostava de latir durante o sexo. Sim, fatos mais que verídicos.

 

Tudo isso fazia com que os encontros sociais e festas fossem muito engraçados porque quando os cumprimentava sempre me lembrava desses detalhes. Mas, ficava com um medo danado na hora dos cumprimentos porque minha boca não filtra muito bem o que o cérebro pensa e imagine só se saísse um  “oi, como vai, senhor pinto pequeno”, “oi, não se esqueça de comprar a Hipoglos na farmácia senhor super viagra”, “olá, como vai senhor não goza nunca”, “Sim, sim.. tudo bem… quer que eu dê uma latidinha para você?”.

 

Em contrapartida, os mesmos almoços que tinham esses detalhes picantes sobre os respectivos moços, também eram cheios de pudores. Uma não deixava o marido ver pornografia, a outra proibia o namorado de ter amigas, a mais nova não dava de quatro porque era vulgar, e a lista era grande. Confesso que no início tentei expor meu modo de pensar, mas, como ainda tenho um pouco de juízo desisti depois de certo tempo pra não ser execrada pela turma do almoço. Não havia ali uma voz que concordasse comigo. Todas eram unânimes quanto proibir pornografia aos maridos e outras formas de sexo não convencional. Como é que eu ia dizer que era eu quem escolhia a pornografia do meu “namorido”, e ele tinha o maior tesão nisso? Estavam protegidas (ou seria, acorrentadas) pela redoma da decência.

 

Quando me lembro desses almoços, penso que tive uma pós-graduação do que é sexo+casamento, sexo+amor, sexo+obrigação, sexo+fidelidade, sexo+posse, sexo+fidelidade, sexo+tudo, menos sexo como desejo, puro e simples. Eu ficava um pouco pasma, por isso até falava pouco, de como meninas jovens, bem instruídas, jornalistas, independentes, eram tão conservadoras. Madame Bovary, a heroína de Gustave Flaubert, que “nasceu” há mais de 150 anos, era muito mais progressista do que aquelas que almoçavam comigo em pleno século XXI. Na época, achava que isso era um comportamento típico feminino. Afinal, homens adoram sexo, não? Bobagem. As pessoas são conservadoras ou não, indiferente ao sexo. Verdade que comprovei, muitas vezes, quando topei com homens tão presos em suas capas de decência que minhas amigas de almoço.

 

É certo que cada um faz sexo da forma que se sente melhor, e, se assim for, não há o que se discutir. Mas, na realidade, muita gente não faz aquilo que gostaria de fazer por puro receio, medo ou preconceito. Para mim, sexo é meu parque de diversões. E, em parque de diversões não existem regras e muito menos deveria ser considerado, sob qualquer hipótese, “pecado” por qualquer doutrina cristã ou não. Como minha doutrina é a palavra, e meu cristo são os livros, resolvi dar uma espiadinha no dicionário para a palavra LUXÚRIA. O resultado: comportamento desregrado com relação aos prazeres do sexo, superabundância, lascívia, indecência… Indecência? Lá vou eu olhar o meu cristo novamente… INDECÊNCIA: inconformidade às regras do decoro, da moral ou dos bons costumes; indignidade, incorreção, inconveniência, indecorosidade.

 

Essa experiência me foi reveladora. SOU UMA INDECENTE. Em parques de diversões não existem bons costumes, decoro, inconveniências… Parques de diversões são feitos para nos aventurarmos, para fazer bagunça, para quebrar as conveniências, para se sujar e se divertir. Sexo é parque de diversão de adulto e não um compromisso biológico colado na nossa listinha de “to do”. Não existe certo e errado (guardado às devidas situações em relação a incapazes, como crianças, bichos ou sexo forçado a alguém). No sexo o que existe é o DESEJO. Sou indecente em relação aos meus desejos, especialmente os sexuais. E o desejo é que impulsiona a nossa vida, seja em qual área for. Não pode ser coibido, castrado. Se houver desejo não há pecado capital.

 

Nunca me senti “devedora” por qualquer coisa que tenha feito movida pelo desejo. Aliás, o sexo mais repulsivo que fiz na vida foi o sem vontade, já no fim do casamento. Sexo bem “normal” se considerarmos a visão conservadora – na cama e com o marido. Mas, completamente repulsivo. Aquilo sim deveria ser considerado pecado. De resto? Sexo com homens, com mulheres, com os dois juntos, sozinha, de pé, na rua, no carro, na cama, na varanda para outros verem, na boate, por telefone, pela internet, de quatro, de lado, batendo, apanhando, bêbada, sóbria, berrando, quietinha, com conhecidos, com namorado, com estranhos, etc, etc, etc, sempre foi muito bom porque sempre existiu o desejo. 

 

Pena que nem todas as pessoas gostam de parques. Eu adoro e fico feliz que ainda tenho muitos “brinquedos” em mente para me aventurar. Esse meu parque é bem diversificado! E, como diz meu atual namorado: sou uma menina grande. Pequem os outros.

 

Eu só quero mesmo é brincar.

 

 

 J

 

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